São 460 anos de história da nossa Mogi das Cruzes. Cidade acolhedora, de velhas tradições e novos comportamentos. Das indústrias, do agronegócio, da Serra do Itapeti, da Festa do Divino, das universidades e de tantos outros adjetivos. Há muito a melhorar, claro. Mas morar aqui nos dá alegria, quase todo mundo ainda se conhece e isso é muito bom. O jeito mogiano de ser e viver é único, não poderia ser diferente numa cidade quatrocentona tão rica em fatos históricos e costumes e ao mesmo tempo importante quando se fala em desenvolvimento econômico com suas grandes indústrias, redes de supermercados e comércio variado. Estamos cercados de verde, o que nos encanta todos os dias quando abrimos as janelas de casa.  Passado, presente e futuro se entrelaçam e, aos poucos, mudam a cara da cidade: a história, o comportamento social, a arquitetura, a economia e a gratidão de mogianos e pessoas das mais diferentes cidades e países que escolheram Mogi das Cruzes para estudar, trabalhar, morar e viver com a família. A seguir, o leitor confere a análise de quem vive a cidade em sua totalidade, uma homenagem do Caderno W aos 460 anos de Mogi das Cruzes!

 

Glauco Ricciele, historiador

Preservação do Patrimônio Histórico é prioridade

“A história de Mogi das Cruzes está apoiada na própria  história nacional. Foi sendo fundada a partir de vila e evoluiu para cidade, como ocorreu com os municípios de Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, só que cresceu muito pouco porque está isolada, digamos assim, entre a Serra do Mar e a Serra do Itapeti e isso fez com que a produção e o consumo em geral fossem feitos aqui. Somente na segunda metade do século 19, com a instalação da ferrovia é que este cenário mudou. O ciclo do ouro, outro crescimento importante, pois o comércio feito exclusivamente entre Minas Gerais e São Paulo passava por Mogi, refletiu na construção da Igreja do Carmo, com suas obras de arte sacra que fazem parte da história da cidade. O maior crescimento ocorreu no decorrer do século 20. Os casarios do século 19 persistiram no cenário urbano até o final do século 20, quando começaram a se tornar um problema para indústria da construção civil e foram sendo substituídos por condomínios e prédios residenciais e comerciais. Com isso, boa parte do nosso patrimônio material não foi preservada, infelizmente. Por isso, sugiro que a próxima gestão municipal tenha um olhar mais dedicado a esta área, porque com o patrimônio histórico material e imaterial preservado – os casarios, as igrejas centenárias, capelas rurais e as tradições artísticas, a cidade terá muito a ganhar agregando conhecimento para investir neste tipo de turismo cultural para trazer visitantes para roteiros de fim de semana ou de um dia. Outro ponto fundamental sobre a preservação histórica é a implantação da disciplina de educação patrimonial nas escolas para os alunos das redes municipal e particular de ensino, por meio de projetos que abordem as questões da preservação da cultura material e imaterial para que todas as gerações conheçam e valorizem a cidade em que vivem”.

 

Afonso Pola, sociólogo

Planejamento sustentável é necessário

“Minha relação com a cidade de Mogi das Cruzes teve início em agosto de 1996 quando me tornei professor da Universidade Braz Cubas (UBC). De lá pra cá, a população de Mogi saltou de pouco mais de 300 mil habitantes para os mais de 450 mil existentes hoje, conforme estimativa do IBGE. Mogi das Cruzes vive, portanto, a fase final de transição de cidade pequena para cidade grande, ainda mantém algumas características de cidade pequena, ao mesmo tempo em que já convive com características de cidade grande.
Sua localização geográfica é privilegiada, já que está próxima de três das principais rodovias do país: Dutra, Ayrton Senna e Fernão Dias, sendo esse um fator muito importante para o seu desenvolvimento. Mogi é uma cidade com uma economia bastante diversificada e geradora de emprego, o que lhe confere destaque entre os municípios do Alto Tietê. Mas cidade precisa ter uma atenção maior para um dos seus grandes problemas: a mobilidade urbana. Quando completa 460 anos, Mogi merece um bom e bem discutido planejamento de longo prazo para se desenvolver de maneira sustentável. Parabéns, Mogi!”.

 

Maria Beatriz Lobo, psicóloga e educadora

Vamos repensar a cidade

” Mogi das Cruzes é uma cidade que aprendi a gostar. Cheguei aqui com 11 anos, passei sete em Fortaleza e cinco nos Estados Unidos. Tem qualidades importantes, mas não deixa de refletir o que acontece com as demais cidades do Brasil. Às vezes, o que é qualidade gera um problema. A localização é privilegiada, por isso muitas coisas não se desenvolveram, já que está perto de grandes centros. Aqui ainda temos a sensação de estarmos numa cidade do interior, onde é possível fazer uma rede de apoio, de pessoas e de serviços importantes, que me deixa amparada.

Mogi ainda carece de um planejamento importante de desenvolvimento e de investimentos. Não apenas de mudanças cosméticas e paliativas, mas estruturais e corajosas, pois há problemas de cidade grande, mantendo alguns problemas de cidade do interior. É urgente repensar como a cidade se estrutura, principalmente como é gerida, já que há décadas não há alternância de poder. Precisamos de pessoas que sejam capazes de trazer uma visão nova para a cidade. Mogi é carente na área de lazer. Os espaços não privilegiam a convivência e o mesmo modelo de urbanização e equipamentos, por exemplo, é replicado porque talvez falte um plano que leve em conta as características do entorno de cada bairro. Nossas praças e espaços de natureza não são convidativos para a população. Podemos ver exemplos mais aprazíveis no país e no exterior. Há uma carência enorme na área de cultura. É necessário rever o centro histórico, decidir qual é a sua vocação e fazer um planejamento, afinal de contas, precisa ter uma área expandida com melhor condição de estacionamento, locomoção de pessoas e acessibilidade.

Por outro lado, ao ficar fora cinco anos e voltar, notei que a cidade melhorou muito na oferta de serviços, de lojas e restaurantes. Deu um salto importante com a expansão do shopping. Mogi ainda é a cidade que a gente volta como se retornasse para o nosso ninho, nos sentimos aconchegados. Tenho muito carinho, por isso me preocupo com ela, afinal, quem ama precisa reconhecer as qualidades e os defeitos. Sempre podemos melhorar. Gostaria de ver Mogi melhor, bem mais estruturada, com inteligência e coragem para enfrentar seus grandes problemas. ”

 

Paulo Pinhal, arquiteto

Mogi, uma cidade fantástica

“Mogi das Cruzes é uma cidade que geograficamente está localizada próxima da maior cidade da América Latina, a capital do Estado. Está cercada por dois espetáculos da natureza, que são a Serra do Mar e a Serra do Itapeti, o que favorece toda a nossa fauna. É o segundo município em extensão, depois da cidade de São Paulo, e 60% da sua área ainda é rural, o que vale o título de cinturão verde da Grande São Paulo. É uma cidade quatrocentona,  cheia de histórias, mas desprezada por uma legião de imigrantes que não têm nenhuma relação afetiva com a cidade. Esse aumento de pessoas de fora se reflete na qualidade de vida e começa a desenvolver uma série de problemas, principalmente no nosso trânsito caótico. Mesmo assim, Mogi das Cruzes continua sendo uma cidade fantástica, pois estamos há 50 quilômetros de São Paulo e a 50 quilômetros da praia. É uma bênção! Existe meia dúzia de pessoas que lutam pela preservação das características e identidade da cidade. Entre elas, está Willy Damasceno, criador do Caderno W, que vem registrando nos últimos 45 anos a trajetória da sociedade mogiana. E se eu pudesse fazer um pedido para Mogi, meu desejo seria que tivéssemos aula de educação patrimonial nas escolas municipais e estaduais, pois se não trabalharmos essa futura geração, teremos uma Mogi das Cruzes apenas nos livros de história”.

 

Rouxinol, historiador e pesquisador

Paixão pela história antiga

“Comecei a me interessar pela história de Mogi no colégio, quando estudava no Washington Luís, em 1979. Um amigo me deu um jornal de 1935, chamado O Liberal (que eu tenho guardado até hoje). A partir daí conheci o jornalista Isaac Grinberg, grande conhecedor da história da cidade, uma referência. Também saí à procura de todos os seus livros, 11 ao todo, e tudo mais que se relacionava a cidade. Atualmente eu tenho uma coluna no site do jornal A Semana, chamada Mogy Antiga, em que eu falo quinzenalmente sobre história, curiosidades epersonalidades da nossa Mogi antiga. A coluna já tem um ano e dois meses e vai virar livro em 2021. Mogi tem muitas curiosidades interessantes na sua história. Muitos viajantes que chegaram ao Brasil nos séculos 18 e 19 passaram por aqui e registraram em livros suas passagens: Saint Hillare, Spix e Martiuns, Alcide D’Orbigny e tantos outros. Pouca gente sabe que Tiradentes quando foi preso no Rio de Janeiro, depois de ser delatado por Silvério dos Reis, estava escondido na casa de um mogiano; que Dom Pedro passou por aqui e visitou a Igreja do Carmo e que um de seus soldados da guarda de honra era um mogiano: Salvador Leite Ferraz. Mogi é rica em história e pra mim, uma história fascinante, sou mogiano da gema, nasci na antiga maternidade Mãe Pobre. Também caminho pelo centro praticamente todos os dias, uma verdadeira terapia. Acredito que Mogi, como outras cidades deste imenso país, ainda tem muito a contar, embora esteja atravessando um período de transformação quando o progresso de certa forma tenta apagar sua história. Aqueles ares de cidade do interior não existem mais, hoje você olha certos pontos da cidade e parece que você não está em Mogi. Ela se verticalizou, virou cidade grande.”

 

Fádua Sleiman, empresária, vice presidente do Conselho da Mulher Empresária da Facesp

Mogi, cidade empreendedora

“Mogi das Cruzes tem atualmente mais de 10 mil comércios. O mercado empresarial tem crescido nos últimos anos uma média de 20% e é referência não só no Alto Tietê e na Grande São Paulo, como no Estado de SP por conta do seu parque industrial e do grande número de prestadores de serviços.  O número de mulheres que estão à frente do comércio na cidade é, em média, 52%, em sociedade e administrando pequenos e médios negócios. O número de microempreendedores individuais também tem crescido em Mogi das Cruzes, assim como os investimentos em e-commerce. Com a pandemia, segundo dados levantados junto a população mogiana, muitas pessoas pretendem investir no próprio negócio neste período. O mercado mogiano é muito promissor. As expectativas de crescimento para 2021 são positivas, o mercado está se aquecendo. Tenho muito orgulho, como mogiana, de fazer parte do crescimento da cidade. Sou filha de comerciantes, meus pais atuaram na área de varejo. Meu pai foi o primeiro atacadista de secos e molhados da região, dá nome a uma rua em Brás Cubas, onde ele prosperou. Acredito muito na nossa cidade e no cidadão daqui, no empreendedor e no empresário. São campeões porque investem e geram empregos. Desejo tudo de bom para a nossa querida Mogi das Cruzes!”

 

Galeria com fotos antigas de Mogi das Cruzes