o-valor-do-silencio-conto-indiano-budista-blog
Era no tempo em que Brahmadatta reinava em Benares. Aquele que um dia viria a ser o Buda nasceu em uma família de ministros do rei. Quando cresceu tornou-se conselheiro do rei nos assuntos temporais e espirituais.

O rei era demais falante. Enquanto falava, não dava oportunidade ao outro de pronunciar uma palavra sequer. O futuro Buda, desejando curá-lo dessa tagarelice excessiva, estava constantemente procurando o meio de fazê-lo.

Vivia naquele tempo, em um lado nas montanhas do Himalaia, uma tartaruga. Dois jovens patos vieram ali em busca de comida e fizeram amizade com ela. Um dia, já bastante íntimos, disseram à tartaruga:

“Amiga tartaruga, o lugar onde vivemos é maravilhoso. Fica na Caverna Dourada, ao pé do Monte Bonito no Himalaia. Você gostaria de ir lá conosco?”

“Mas como poderei lá chegar?”

“Poderemos levá-la se você puder conter sua língua e não falar com ninguém.”

“Claro que poderei. Leve-me com vocês.”

“Perfeitamente”, disseram eles. Fizeram a tartaruga segurar pela boca uma vara, cada um pegou em uma ponta com o bico e voaram rumo às montanhas.

Algumas pessoas, vendo a tartaruga conduzida por dois patos, exclamaram: ”Dois patos selvagens estão carregado uma tartaruga pendurada em uma vara!”

 

o-valor-do-silencio-conto-indiano-budista-imagem-blog

 

A tartaruga ouviu e, sem poder conter-se disse: “Não é assunto de vocês se meus amigos quiseram me carregar, infelizes escravos!”

Nesse momento o voo veloz dos patos alcançava justamente o palácio do rei em Benares. A tartaruga despencou da vara onde se agarrara e caiu nos terraços do palácio, partida em duas.

Levantou-se um murmúrio geral: “Uma tartaruga caiu nos terraços e se partiu em duas!”

O rei, acompanhado do futuro Buda, foi ao local seguido de seus cortesãos. Vendo a tartaruga, perguntou ao Bodisat: “Mestre, como ela caiu aqui?”

O futuro Buda pensou: “Há tanto tempo tenho procurado o meio adequado de advertir o rei. Eis aí uma ocasião propícia de o fazer. Essa tartaruga deve ter fito amizade com os patos selvagens; eles a fizeram segurar com a boca uma vara e a transportaram rumo às montanhas. Enquanto voava dever ouvido alguém falar; sendo incapaz de manter a boca fechada, quis replicar; largou a vara, caiu do alto e agora perdeu a vida.”

Tendo assim refletido, disse o rei:

“Verdadeiramente, ó nobre rei, àqueles que são chamados tagarelas e não param de falar um minuto sobrevém um infortúnio como esse que aconteceu à tartaruga”.

Em seguida pronunciou os seguintes versos:

 

A tartaruga veio a perder a vida

No momento em que não pode calar-se

Embora firme na vara trazida

Bastou uma palavra para arrebentar-se

Veja pois, nobre rei, quanta força tem

Quem diz sábias palavras na hora que convém

Quem os fios das palavras estica em torvelim

Como esta que aí está acaba em desditoso fim

 

O rei percebeu que o Bodisat se referia a ele, e disse:

“Ó mestre, está falando de mim?”

O Bodisat respondeu abertamente diante de todos:

“Ó grande rei, de ti ou de qualquer outro. Quem fala além da medida encontrará sempre um infortúnio como esse que aqui acabamos de ver.”

O rei daí em diante passou a conter-se e tonou-se um homem de poucas palavras.

 

 

Assista e este interessante vídeo experimental “Zen: Meditation and Silence”:

 

Base: Contos de fadas indianos, de Joseph Jacobs, Landy Editora