Na semana passada, escrevi sobre as palavras de origem francesa na nossa língua portuguesa, agora é a vez de abordar a relação entre o português (sobretudo o Português Brasileiro) e o francês. Embora a contribuição do nosso “brésilien” não seja grande tal como o francês na língua portuguesa, é importante salientar que a língua francesa tem em torno de oito mil palavras estrangeiras, segundo uma das maiores linguistas da atualidade, Henriette Walter.Muitos empréstimos da língua portuguesa para o francês são provenientes do tupi e do guarani e, em geral, são termos relacionados à flora e à fauna.
Consultando o dicionário “Le Petit Robert” (2011), a principal referência da língua francesa, constatamos alguns exemplos:

Ananas – palavra do tupi-guarani, com datação de 1578. Ananás (com acento em português) significa abacaxi.
Cajou – derivado do tupi, com datação de 1765. A palavra sofreu modificação gráfica para que a pronúncia ficasse igual ao português, “caju”. O encontro das vogais “-ou” em francês é o equivalente ao nosso “-u”.
Guarana – vindo do guarani, com datação de 1834.
Jaguar: originário do tupi, com datação de 1761. Grande mamífero carnívoro da família dos felídeos.
Manioc – proveniente do tupi, com datação de 1556. Em português, temos “mandioca”.
Piranha – substantivo oriundo do tupi, com datação de 1795.
Tapioca – proveniente do tupi guarani, com datação de 1651.
Tatou – derivado do tupi, com datação de 1553. O termo sofreu modificação gráfica para que ficasse com a pronúncia igual ao português, “tatu”.

Além dos exemplos acima, temos mais três exemplos dicionarizados não relacionados nas duas categorias, como por exemplo:

Caïpirinha – segundo o dicionário, palavra incorporada na língua francesa no ano de 1992. O termo sofreu modificações na grafia para manter a sonoridade original da palavra. Com o trema, a pronúncia fica idêntica ao português brasileiro.

Favela – além de escrevermos “favela”, o termo possui as variantes “favella” e “favéla”. Em francês, também temos a palavra “bidonville” como sinônimo, porém o termo “favela” faz menção diretamente às favelas brasileiras. Com datação estimada no século XX, a definição do dicionário francês indica que se trata de um conjunto de habitações populares de construção pobre e desprovidas de conforto. Jornais como o “Le Monde” já utilizam com frequência o termo.

Samba – com datação de 1925, termo mais difundido em 1945. Aqui temos uma curiosidade: em francês, a palavra é feminina. Falamos “la samba”.

Outra curiosidade relacionada aos empréstimos de uma língua para a outra é a palavra “feitiço”, que em francês virou “fétiche”. Com datação de 1669, o termo é usado no sentido de “amuleto” em francês. O português, por sua vez, incorporou a palavra “fetiche” (sem acento no português) no léxico por volta de 1873. Um caso interessante, uma vez que a palavra migrou do português para o francês, sofreu modificações gráficas e retornou para a língua portuguesa com a grafia francesa.

Depois de conhecermos as contribuições de uma língua para a outra, semana que vem começo com as expressões francesas para o turismo.

Bonne semaine!

Katiuscia Santana é professora de língua francesa e mestranda em Filologia pela Universidade de São Paulo. Possui o blog lafrancebresil.blogspot.com.br . Contato: kathycris@gmail.com. Imagem retirada do site http://www.charqueadas.ifsul.edu.br.