Por considerarem a Terra achatada, os povos antigos acreditavam que uma pessoa poderia cair se chegasse perto da “ borda”. O “fim do mundo” era então um lugar onde não existia mais chão, com o pressuposto vazio depois de a terra “acabar”.  Todos nós passamos por situações aparentemente destituídas de superfícies sólidas sobre as quais possamos andar, pisar ou mesmo descansar. Nosso mundo parece estar desmoronando sob nossos pés, e sentimos vontade de estar em qualquer outro lugar, exceto naquele onde nos encontramos.

O místico S. João da Cruz chamava esta crise de a  “noite escura da alma”. Se já esteve acordado nas primeiras horas da madrugada, enquanto o mundo dormia, provavelmente já vivenciou a imensa solidão desses momentos. Não há ninguém para conversar; é quase como se fosse a única pessoa viva no mundo. A noite parece interminável, e fica fácil acreditar que o dia jamais irá amanhecer.

Ao longo de quase 69 anos constato que nossas crises são exatamente assim, aparentemente infindáveis e sem esperanças de algum desfecho positivo. Nessas ocasiões, podemos chegar a acreditar que a vida não vale a pena. Entretanto, creio que sempre tenho motivos para viver, com a consciência de que há um papel a desempenhar, em minha vida, na vida de todas as outras pessoas e no universo.

Quando surge uma situação que pareça o “ fim do mundo” faço uma imagem mental de que estou em pé no inicio de uma escadaria. Se estiver escuro, não poderei saber que ali existem degraus capazes de apoiar o meu peso. Peço Luz, vejo a escada, cujos degraus vão me levar além do problema,  até a solução. Há uma parte em mim que conhece a melhor opção para resolver qualquer problema que surja. Lembro de que, mesmo tendo tentado muitas coisas que não funcionaram, sempre existem outras maneiras de continuar tentando. Não existem problemas insolúveis, somente problemas que ainda não sabemos como resolver. O desconhecimento da solução de algum problema não me transforma numa pessoa imprestável. Continuo sendo uma pessoa útil e apreciada.

Após a mais escura das noites, o sol sempre nasce. O que estou vivenciando é apenas uma nuvem que esconde a face do sol. Deixo que a energia e o calor do sol dissolvam a nuvem que bloqueia a minha luz interna.  E assim permito que o sol da crença na vida me forneça a energia necessária para subir, degrau por degrau até atingir o top.