Janice Ito
Janice Ito, de 54 anos, é uma mulher versátil, daquelas que se adaptam com facilidade às mais diversas situações. E também é intensa em todas as suas relações. Para levar a vida com prazer, ela se divide em muitas, cada uma ao seu tempo: arquiteta, decoradora, artista plástica, professora de pintura e, recentemente, visual merchandesign (VM) na Nadia Casa. Por trás de tantas atividades que tão bem desempenha, Janice tem uma sólida estrutura familiar que muito a orgulha: o marido, Breno, médico conhecido na cidade, com quem vive há 30 anos e o filho, Lucas, que cursa Administração de Empresas na Fundação Getúlio Vargas.
Caderno W: Você nasceu em Guararapes, interior do Estado, veio estudar Arquitetura em Mogi, conheceu aqui o seu marido, o médico Breno Botelho Santiago, e adotou a cidade de vez. Conte um pouco sobre esta trajetória.
Janice Ito: Eu e meus amigos do cursinho decidimos prestar vestibular em Mogi, mas eu queria mesmo era fazer USP ou Mackenzie. Na primeira vez eu não consegui, na segunda, passei, mas desisti porque tinha sido aprovada antes aqui em Mogi. Como sou de família japonesa tradicional, segunda filha, vislumbrei a chance de sair de casa. Imagine, eu tinha 17 anos e queria a minha independência, como todo jovem, embora dependesse dos meus pais financeiramente. Durante seis meses viajava de ônibus fretado para Mogi, meu curso era em período integral. Saía de madrugada da minha cidade e só retornava à noite. A Mogi-Dutra tinha acabado de ser inaugurada e despertava certa apreensão dos meus pais, pois aconteciam muitos acidentes. Foi quando eles me deixaram morar aqui em república.
Caderno W: Estamos falando de 1975, o ano em que você chegou a Mogi, inclusive uma época complicada na economia e na política do País. Quando você se formou, em 1980, ainda investiu em outros caminhos profissionais. Por quê?
Janice: Quando estudava, até interrompi a faculdade por seis meses para ver se era isto mesmo que eu queria. Sempre fui uma pessoa inquieta e tudo o que faço é muito minucioso, me dedico intensamente. Quando me formei, a situação do País estava ruim, não tinha emprego e havia uma recessão brava. O mercado de trabalho estava péssimo, não arrumava emprego de jeito nenhum e olha que fui uma ótima aluna da faculdade. Consegui um estágio e me colocaram para arquivar documentos. Estava decepcionada e voltei para a casa do meu pai. Lá, comecei a amadurecer a ideia de trabalhar com moda, pois quando era criança criava os modelos de roupas das minhas Barbies e os costurava na máquina da minha mãe. Um ano depois estava em Mogi de novo. Nesta época, assumi um bar em frente à Santa Casa, que era do meu cunhado. Pois eu aumentei o faturamento servindo almoço para o pessoal da Medicina. Um ano depois, fui convidada para ser professora- assistente no curso de Arquitetura, onde atuei por dois anos. A faculdade demitiu muita gente, inclusive eu. Fiz um curso de corte e costura e decidi montar a minha confecção.
Caderno W: Então você já gostava de moda e para montar o seu negócio foi se especializar. É isto mesmo?
Janice: Como eu já gostava muito da área precisava do conhecimento técnico. Eu já sabia cortar as peças, aprendi muita coisa sozinha. E eu sou assim, quando resolvo fazer alguma coisa, corro atrás até desvendar. Tudo em minha vida é intuitivo. Não penso, vou fazendo. As coisas vão acontecendo. Então, na confecção, fazia peças básicas e uma amiga sugeriu que eu as mostrasse para a Luci Oey, que tinha duas butiques em Mogi que eram referência em bom gosto e elegância na época. Mostrei minha produção para ela, que botou muitos defeitos. E com razão, porque eu ainda não tinha experiência. Mas ela disse que eu tinha futuro e me ensinou muitas coisas. Então, criava peças maravilhosas: cortava, costurava. E fui me tornando meio família da Luci, convivia muito com ela, a acompanhava nas compras, aprendi muito até que decidi fechar a confecção para me dedicar à Arquitetura, finalmente, pois a realidade do mercado já era outra.
Caderno W: Neste meio tempo você já estava com o Breno, seu marido. E ele tem tudo a ver com a sua retomada da profi ssão de arquiteta?
Janice: Sim. No comecinho de 1982 conheci o Breno em um barzinho, o Pão & Vinho, ele havia acabado de se separar e desde então estamos juntos. Compramos um terreno na Riviera de São Lourenço logo no lançamento do loteamento. A confecção já não estava funcionando mais e decidimos construir a nossa casa na praia, e este foi o meu primeiro projeto como arquiteta. E logo foram surgindo outros lá na Riviera. Meu primeiro cliente foi um médico de São Paulo muito exigente, não sei até hoje como consegui fechar aquele contrato. Antes, fiz cursos em São Paulo sobre como cobrar um projeto e administrar obras para me especializar e assim as coisas foram acontecendo. Subia e descia a serra todos os dias, cuidava sozinha das obras, até de cinco ao mesmo tempo. Foram mais de 10 anos assim. A minha casa era meu quartel general, todo mundo se divertindo e eu trabalhando, recebendo clientes. Fiz, inclusive, lojas no shopping da Riviera.
Caderno W: Depois destes bem- -sucedidos anos atuando na Arquitetura, você diminui o ritmo e outra grande paixão surge na sua vida: a pintura de quadros. Como você se envolveu com as artes plásticas?
Janice: Meu único filho, o Lucas, nasceu em 1991, a minha vida profissional tinha um ritmo muito intenso e ele foi crescendo com a babá e logo a chamaria de mãe (risos). Eu não conseguia acompanhar como queria o seu desenvolvimento e parei de trabalhar quando ele tinha 6 anos. Queria me dedicar mais ao meu filho e como ele era um aluno muito adiantado, o levava na terapia e no consultório também tinha o ateliê de pintura da Ana Cláudia. Enquanto esperava o Lucas, decidi fazer aula. E comecei a pintar. Sempre fui muito do contra: não gosto de pintar com pincel, vou pintar com espátula. As pessoas gostam de espátula, vou pintar com pincel. Fiz seis meses de aula, mas não gostava desta história de pintar com hora marcada e levava o quadro para terminar em casa, não conseguia esperar uma semana para a próxima aula. E com o tempo senti a necessidade de pintar sozinha, afinal, já dominava as técnicas.
Caderno W: Foi quando você decidiu, então, buscar o seu estilo próprio de pintar?
Janice: Sim. Além da técnica, que eu já havia aprendido, a intuição vale muito nas artes plásticas e isto a pessoa vai desenvolvendo sozinha e aos poucos. Volume, sombra, opostos, fui descobrindo sozinha o que gostava e sempre muito exigente. Aprendi também outras técnicas e as minhas amigas gostavam das minhas obras e pediam para eu ensinar pintura para elas. Quando vi, já estava com dez alunas toda semana. E hoje denomino a minha arte como realismo fantástico. As flores são o tema central das minhas obras, mas não pinto flores pequenininhas, vou no miolo delas, eu vou na abertura da pétala. Enfim, retrato a textura dos detalhes por meio de pano, brocha e pincel.
Caderno W: Além de dar aulas e produzir muitas telas, você também participou de concursos e foi premiada. Fale sobre esta fase.
Janice: Até então eu fazia as minhas telas para o meu acervo e presenteava os amigos, não tinha a intenção de vender. Em minha vida, nada é planejado. Entrei num concurso que vi numa revista e de 3.800 participantes, fiquei entre os cem primeiros e no dia 11 de setembro de 2001 foi o vernissage no Memorial da América Latina. Foi quando percebi que o meu trabalho tinha valor no mercado. E fui entrando em outros concursos e recebendo prêmios. Comecei a vender os meus quadros.
Caderno W: Atualmente, além dos projetos de arquitetura e as artes plásticas, você também faz um trabalho de visual merchandesign (VM) na Nadia Casa. Como é este trabalho?
Janice: Um dia eu estava fazendo compras na Nadia Casa e a gerente me chamou para conversar com a Tereza Condo porque havia a necessidade de organizar as seções da loja, melhorar o visual, destacar os produtos nas vitrinas, à vista dos clientes. E comecei na hora a arrumar tudo. E desde novembro, duas vezes por semana, estou lá. Então, a minha veia arquiteta é essencial para este trabalho como decoradora. Eu estou me adequando à loja e ao ritmo de trabalho da Tereza e ela a mim. Está nascendo uma amizade bacana, uma identificação muito grande.
Caderno W: E nesta sua trajetória bem-sucedida, durante a entrevista você sempre cita a sua família como suporte de tudo. É possível dimensionar este apoio?
Janice: Impossível. O que sou hoje eu devo ao companheirismo do meu marido, com quem estou há 30 anos e que sempre me apoiou e me entendeu. Meu filho é uma pessoa que só me leva para cima, ele aponta os meus defeitos e as minhas qualidades, dentro daquilo que ele acha que está errado. O Lucas tem uma cabeça muito boa e uma visão bacana das coisas. Eu sou espírita, espiritualista, acredito demais que a gente não começa e nem acaba aqui. Eu sei que é muito mais, dentro desta espiritualidade, deste jeito que vivo as coisas é que aprendi e que aprendo.