Cláudia Sant’anna
Histórias de superação sempre dão um alento para quem está atravessando um momento difícil e merecem ser contadas porque faz a vida de outras pessoas valer mais a pena. Principalmente neste início de ano, quando os desejos são renovados e as promessas são feitas. A entrevistada de hoje, Cláudia Sant´anna, 49 anos, é um bom exemplo neste sentido. Ela passou por momentos difíceis aos 21 anos, quando teve um aneurisma cerebral e chegou a ser desenganada pelos médicos e até recebeu a extrema-unção. Mas deu a volta por cima e encarou a doença como um aprendizado, curou-se e, desde então, seu único objetivo de vida é ser uma pessoa melhor a cada dia. Encontrou forças na maternidade para superar as adversidades decorrentes da doença e tem no fi lho Gabriel, de 27 anos, o seu maior projeto de vida. Quando ainda se recuperava e tomando remédios fortíssimos, decidiu cursar Fisioterapia, fez diversos cursos de especialização e se tornou uma profi ssional apaixonada e que faz a diferença na vida dos seus pacientes. Atende no sistema home care e a maioria dos seus pacientes são idosos. De fala mansa, sorriso fácil, Cláudia não se deixa abalar, tornou-se uma mulher forte e adorável. Segundo ela, as pessoas não podem se abater diante das adversidades, é sempre preciso ver o outro lado do problema e enfrentá-lo, custe o que custar. Numa época em que todo mundo corre atrás do futuro, nada melhor do que ouvir histórias bem-sucedidas para fi ncar os pés no presente e aproveitar o hoje. protagonizou uma emocionante e dramática história de superação com o aneurisma diagnosticado quando você tinha 21 anos. E histórias assim merecem ser contadas, já que servem de alento para quem está passando pelo mesmo problema ou nos ensina que a vida deve ser valorizada a qualquer custo. Como ocorreu tudo isto, desde o diagnóstico até a cura? Cláudia Sant´anna: Aos 21 anos, tive um aneurisma cerebral causado por um tumor. Segundo o meu neurologista, o doutor Antonio Yoiti Sakotani, o grande responsável por eu estar aqui hoje, desenvolvi a doença num processo psicossomático. Senti uma dor muito grande, tive um AVC e fiquei em coma 16 dias. Num determinado momento, a equipe médica já esperava morte cerebral. O padre Vicente Morlini me deu até a extrema-unção e, no fim da oração, eu disse amém. E foi por isto que os médicos decidiram fazer, então, a cirurgia. Naquela época, não existiam exames de diagnóstico por imagem tão avançados como hoje, não era possível detectar com precisão o tamanho do problema. Fiz a cirurgia, que durou 13 horas, coloquei uma prótese e fui me recuperando. Fui muito bem atendida na Santa Casa de Mogi. Sou muito grata a toda a equipe que cuidou de mim. Após a cirurgia, achavam que eu ficaria com alguma sequela motora, mas isto não ocorreu.
Caderno W: Passados 28 anos, o que mudou na maneira de encarar a vida?
Cláudia: Acredito que eu tinha de passar por isso para melhorar como pessoa. Quando descobri o aneurisma, estava grávida de uma menina, que nasceu, viveu 40 dias e morreu. Logo depois da cura, fiquei grávida do Gabriel, que vai fazer 27 anos. Acho que toda vez que a gente passa por uma experiência assim de muita dificuldade, é preciso melhorar como pessoa, lapidar o modo de ver a vida, fazer uma reforma sob todos os aspectos e mudar muitas coisas. Temos muito a aprender, sempre. O Gabriel nasceu um ano depois do problema sério do aneurisma. Ele foi o meu maior incentivo em tudo, principalmente para eu recomeçar a minha vida depois do que passei. É meu maior patrimônio, um amor mesmo incondicional que tenho por ele. E sempre tive em mente que o criei para o mundo. Sempre procurei passar os princípios da bondade, até mesmo por tudo o que passei, e consegui, ele é extremamente bom. É formado em administração de empresas.
Caderno W: Depois da recuperação foi preciso retomar a sua vida. Como foi este recomeço?
Cláudia: Nesta época, as matrículas estavam abertas para a primeira turma do curso de Fisioterapia da Faculdade do Clube Náutico Mogiano e eu decidi fazer. E ouvia alguns comentários desagradáveis, me viam como uma coitada. Eu tomava Gardenal, andava com um cateter e estava careca por causa do tratamento. Mas não me abalei e corri atrás, fui fazer a Faculdade de Fisioterapia, afinal, tive de reverter a minha situação e precisava criar o meu filho. O meu pai foi o meu maior incentivador. Faz 20 anos que ele morreu, ele era sensacional. Eu nunca me vi incapaz, uma coitada e acho que as pessoas não devem se sentir assim em hipótese alguma. A minha sorte é que eu tinha um grande suporte emocional da minha família e do meu médico, o doutor Sakotani. Ele me dizia que o segredo da minha recuperação era a forma como eu encarava a doença e tudo a minha volta. E eu nunca me questionei porque estava passando por aquele momento ruim ou me lamentei com Deus. Aceitei tudo o que estava acontecendo, aceitei o tratamento agressivo e dava uma resposta superior.
Caderno W: Mas não é fácil ter uma atitude assim tão serena diante de uma fase tão difícil. De onde você tirou forças para isto?
Cláudia: Claro que não. O apoio da família e dos médicos foi mesmo essencial. Estava em coma, nem sabia quem estava ao meu lado. Quando despertei e comecei a perceber as coisas a minha volta, observava tudo muito atentamente, apesar de não conseguir me comunicar com ninguém. E foi exatamente neste ponto que mudou a minha vida. Porque eu observava os detalhes: a hora do banho, do curativo, dos remédios, as visitas e ficava pensando: poxa, eu não sou nada. Durante um ano continuei me tratando não apenas fisicamente, mas também como pessoa: o meu interior e a minha espiritualidade. E hoje sou muito mais tranquila, a ponto dos meus amigos brincarem comigo: “Desce do livro, Alice!” (risos)
Caderno W: E tudo isto que você aprendeu de novo em sua vida se reflete no dia a dia com os seus pacientes de que forma?
Cláudia: De uma maneira muito prazerosa. Em minha profissão, meu objetivo é dar o melhor de mim. Tenho de fazer o meu paciente entender que ele tem de ser melhor do que era antes de ter o problema de saúde. Além da parte técnica do meu trabalho, que é deixar o meu paciente funcional de novo, quero que ele fique melhor também como pessoa. Por isso atendo todos eles com um sorriso no rosto, de modo gentil e simpático para quebrar algum tipo de revolta ou tristeza que eles tenham por não estarem em suas perfeitas condições. E isto me dá uma satisfação enorme no dia a dia.
Caderno W: Na área da Fisioterapia, qual é a sua formação? Você trabalha com home care hoje em dia. Como define a sua atuação?
Cláudia: A minha formação é na área cardiorrespiratória em UTI e UTI Neonatal, inclusive trabalhei em hospital em São Paulo por um bom tempo, fiz muitos cursos. Quando voltei para Mogi, decidi oferecer um serviço diferenciado e hoje trabalho com home care, ou seja, atendo os meus pacientes em domicílio. A maioria são idosos e isto exige de mim um cuidado muito especial com eles, me especializei neste tipo de atendimento. Tenho de respeitar as limitações. Qualquer resultado obtido causa muita satisfação, porque, por exemplo, no tratamento fisioterápico do AVC, os movimentos serão recuperados e eles se sentem ativos de novo. Gosto muito desta área.
Caderno W: Além de atingir os seus objetivos no tratamento dos seus pacientes, claro, qual é a maior satisfação que você tem em sua carreira?
Cláudia: Eu acho que a resposta afetiva que a pessoa me dá porque ela foi recuperada, esta coisa do olhar, porque quando você estimula tem o reflexo e reação e tudo na natureza é assim: ação e reação. Tenho uma paciente que teve alta, mas ela sempre quer me ver para conversarmos. Isto para mim é maravilhoso, porque eu acabo fazendo parte da vida das pessoas. Vale muito a pena. Sou realizada, adoro a minha profissão. Os meus instrumentos de trabalho são: uma cabeça, duas mãos e um coração.
Caderno W: Você também integra o time de voluntários do Cerene, em Arujá. Como é este trabalho?
Cláudia: O Centro de Reabilitação Neurológica – Joyce de Mello Yamato (Cerene – JMY), localizada em Arujá, atende pacientes que não podem pagar pelo tratamento. Foi inaugurado em maio do ano passado em homenagem à fisioterapeuta que realizava trabalho voluntário nesta área e morreu em decorrência dos deslizamentos ocorridos em janeiro passado em Angra dos Reis. E eu sou voluntária na clínica, atendo lá sempre que posso. Estamos numa luta muito grande para conseguirmos subvenção do Estado ou do município para ampliar o número de pacientes atendidos. Acho que o trabalho social é muito importante e quando as pessoas praticam o bem, com certeza o recebem de volta.